A apreensão de quase 270 quilos de alimentos em uma fábrica de doces com lojas em shoppings de Porto Alegreescancara um problema recorrente no setor de alimentos: o abismo entre discurso comercial e controle técnico real.
A marca, que operava quiosques no Shopping Iguatemi e no BarraShoppingSul, se apresentava ao público como uma opção “saudável”. No entanto, a fiscalização encontrou produtos vencidos, alimentos armazenados em temperatura inadequada, embalagens danificadas e rótulos incompletos — incluindo a ausência de informações obrigatórias sobre a presença de glúten.
A operação foi desencadeada após denúncias de consumidores que passaram mal ao consumir os produtos. A chamada Operação Promessa reuniu Vigilância Sanitária, Procon e forças de segurança. O resultado foi a apreensão de 267 quilos de alimentos, parte deles inutilizada no local, parte enviada para análise laboratorial e outra parte retida por necessidade de adequação de rotulagem.
O risco invisível por trás do “apelo saudável”
Entre as irregularidades mais graves estava o uso de ingredientes com glúten sem a devida informação no rótulo — justamente em uma marca que utilizava a ausência desse ingrediente como diferencial de marketing. Também foram encontrados refrescos contendo fenilalanina, substância que precisa ser obrigatoriamente informada, pois representa risco direto para pessoas com fenilcetonúria.
Esse tipo de falha não é detalhe técnico. É risco real à saúde.
Rotulagem incorreta não é apenas infração administrativa. Ela pode causar reações adversas, internações e, em casos extremos, consequências graves para grupos específicos da população.
Reincidência não é acaso. É falha de gestão.
De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, a empresa já era reincidente, o que reforça um ponto central: problemas estruturais não se resolvem com correções pontuais.
Quando há reincidência, geralmente há:
- ausência de controle sistemático de processos
- falhas no acompanhamento de fornecedores
- falta de validação técnica de rótulos
- inexistência ou fragilidade da atuação do Responsável Técnico
A tentativa de atribuir as irregularidades a “falhas de fornecedor” ou a poucos produtos vencidos não explica volumes dessa magnitude nem a diversidade de não conformidades encontradas.



